Entre os temas mais curiosos de Gênesis está a figura da serpente no relato da queda (Gn 3). Ao longo dos séculos, muitos perguntaram: a serpente tinha pernas? Falava literalmente? Era um animal comum? Essas perguntas são legítimas — e merecem respostas responsáveis, sem exageros nem especulações gratuitas.
Vamos tratar o texto com o respeito que ele exige.
1. O gênero literário de Gênesis 1–3
Antes de tudo, precisamos entender que Gênesis 1–3 é um texto teológico e fundacional. Ele não foi escrito como um tratado científico, mas como uma revelação profunda sobre:
- A origem da criação
- A bondade inicial do mundo
- A entrada do pecado
- A ruptura entre Deus e o ser humano
Isso significa que o texto utiliza linguagem acessível, imagens fortes e símbolos compreensíveis ao leitor antigo, sem perder sua historicidade teológica.
2. O que o texto diz sobre a serpente?
Gênesis 3:1 afirma:
“Ora, a serpente era o mais astuto de todos os animais do campo que o Senhor Deus tinha feito.”
Alguns pontos importantes:
- A serpente é chamada de animal criado por Deus
- É descrita como astuta, não como mítica
- Não é identificada diretamente como Satanás no texto
Somente ao longo da revelação bíblica (Ap 12:9; Rm 16:20) é que a serpente passa a ser claramente associada ao inimigo espiritual.
3. A serpente tinha pernas?
Após o pecado, Deus declara:
“Porquanto fizeste isso, maldita és tu entre todos os animais… sobre o teu ventre andarás, e pó comerás todos os dias da tua vida.” (Gn 3:14)
Essa declaração levou muitos a concluir que a serpente não se locomovia como hoje antes da queda.
Do ponto de vista bíblico:
- O texto não afirma explicitamente que ela tinha pernas
- Mas sugere uma mudança em sua condição
- Trata-se de uma linguagem de juízo e humilhação
Alguns intérpretes entendem isso literalmente, outros veem uma imagem simbólica de degradação — comum na literatura hebraica.
Ambas as leituras existem dentro do cristianismo histórico.
4. A serpente falava literalmente?
Aqui precisamos ter ainda mais cuidado.
O texto não explica como a serpente falou, apenas que houve comunicação. A Bíblia não se preocupa em satisfazer nossa curiosidade moderna, mas em revelar a origem da desobediência humana.
Teologicamente, a maioria dos estudiosos entende que:
- O mal usou um meio criado
- A serpente foi um instrumento, não a fonte do mal
- O foco está na decisão humana, não no mecanismo da tentação
O texto não convida à fantasia, mas à responsabilidade.
5. Ciência, biologia e o texto bíblico
Do ponto de vista científico:
- Não há evidência de serpentes com pernas em tempos históricos humanos
- A biologia explica a perda de membros em répteis por processos evolutivos
Isso não entra em conflito direto com o texto bíblico, pois Gênesis não descreve um processo biológico, mas um ato de juízo divino dentro de uma narrativa teológica.
Misturar essas categorias costuma gerar confusão desnecessária.
6. O verdadeiro significado da maldição
Mais importante do que a forma física da serpente é o significado da maldição:
- Humilhação
- Derrota
- Submissão ao plano redentor de Deus
Logo após, Deus anuncia:
“Ela te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.” (Gn 3:15)
Aqui está o centro do texto: a promessa de redenção.
7. O foco não é a serpente, é Cristo
A Bíblia não foi escrita para satisfazer curiosidade zoológica, mas para revelar o plano da salvação.
Quando o texto é lido corretamente, percebemos que:
- A serpente perde o protagonismo
- O pecado é exposto
- A graça é anunciada
Cristo é o cumprimento dessa promessa, derrotando definitivamente o mal.
Conclusão pastoral
Perguntar se a serpente tinha pernas é legítimo. Transformar isso em doutrina, não.
A fé cristã é fortalecida quando:
- Lemos a Bíblia com reverência
- Respeitamos seus gêneros literários
- Evitamos sensacionalismo
- Mantemos Cristo no centro
No Éden, o pecado entrou. Na cruz, ele foi vencido.
Essa é a boa notícia.
“O Deus da paz esmagará em breve Satanás debaixo dos vossos pés.” (Romanos 16:20)
Que nossa fé esteja firmada nessa esperança.
Amém.


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